Diario Catarinense,  Florianópolis, 08 de setembro de 2007.        Edição nº 7820
O problema do prefixo
POR SÉRGIO LUIZ PRADO BELLEI *

A coletânea de textos reunida sob o título de Pós-Crítica, organizada por Raúl Antelo e Maria Lúcia de Barros Camargo, convida o leitor, de saída, para uma reflexão sobre o prefixo "pós". Desde o final da década de 1960, nas áreas que chamamos de humanidades, este é um prefixo que virou problema. E virou problema porque, de certa forma, traiu a sua vocação semântica tradicional ao adquirir um novo significado. É a traição que ocorre quando o prefixo começa, insistentemente, a apresentar-se na forma de uma repetição quase infinita, chamando a atenção para si mesmo: pós-moderno, pós-industrial, pós-fordismo, pós-estruturalismo, pós-nacional, pós-colonial, pós-crítica, pós-narrativa, pós-humano, pós-ficção, pós-literatura, pós-tudo. Chamando a atenção para si mesmo, o "pós" deixa de fazer o que fazia tradicionalmente, que era apontar, no devir temporal, para um antes e um depois, entre os quais indicava a transição. Prometia, portanto, a segurança da continuidade histórica: saímos de um "antes", passamos pelo "pós" e chegamos ao "depois". É a segurança, ainda que ilusória, de quem saiu de um lugar para chegar a outro, em um percurso linear de começo, meio e fim. Prometia, em resumo, o conforto da viagem com destino, que só pode acontecer em tempos felizes. Há quase 60 anos, esse conforto está comprometido pelo pós, que nos chama para embarcar em viagem sem destino certo, talvez sem destino a não ser o do caminhar puro e simples. De indicador de passagem temporal em uma narrativa bem tramada, o pós se transforma na promessa do percurso pelo percurso, que é a marca do que se poderia chamar de tempos infelizes. Em tempos felizes, o termo post-mortem, por exemplo significava o céu, o inferno, o purgatório, ou o nada. Em todos os casos, um nome prometido e nomeado. Hoje, traduzido em termos pós-modernos, significa apenas que algo está para morrer. O pós significa hoje, então, esse momento em que o velho ainda não morreu e o novo ainda está por nascer. Mas porque tarda muito a nascer, instala-se a suspeita de que talvez não nasça. Chamando a atenção sobre si mesmo e para o passado, o pós nega-se a apontar para o nome que está por vir, e que só pode então ser entendido na forma do desconhecido e do monstruoso. Trai a sua vocação tradicional de agente de passagem. Nos tempos felizes do passado, anunciava uma partida e a promessa de uma chegança. Em tempos menos felizes, anuncia apenas uma partida, e promete apenas uma errância em uma dimensão espacial e sem fronteiras, aquela da qual falou Borges em A Biblioteca de Babel, que é a biblioteca do pós-livro: o narrador que percorre corredores sem fim jamais chega à última das estantes, ou ao último livro. O "pós" já não anuncia o conforto da chegança, mas apenas a angústia de uma partida cheia de dúvidas, o que significa que, em tempos menos felizes, já não é tão certo, nas humanidades, saber para onde vamos.

Tendo a atenção assim chamada para refletir sobre o "pós", o leitor embarca na leitura dos ensaios. A heterogeneidade dos assuntos tratados faz com que se esqueça, por um momento, da reflexão angustiante da viagem sem chegança. Parecem ensaios que, à primeira vista, suspendem a angústia, para fazer a crítica. Mas logo se percebe que, ainda que os ensaios possam, por um momento, esquecer-se do pós, o pós não se esquece deles e reaparece, aqui e ali, sorrateiramente, com toques sutis. Aparece, por exemplo, em uma certa ênfase temática, que privilegia mais a mobilidade e o fluxo do que a estabilidade e a fixidez, o homem politrópico mais do que o monotrópico, o evento mais do que a estrutura, o entre-lugar mais do que o lugar, o transitório mais do que o eterno, o etnográfico mais do que o totalizante, o devir mais do que o ser, o porvir incerto mais do que o agora, a destinação mais do que o destino, a vereda mais do que a estrada, a aporia mais do que a mão única, o fractal mais do que a pedra, o outro invisível mais do que o visível, a crise da representação mais do que a força mimética. E aparece, também, na evocação de teóricos que suspeitaram, vigorosamente, do conforto das partidas e cheganças dos tempos felizes: Jacques Derrida, Roland Barthes, Walter Benjamin, Maurice Blanchot, Jacques Lacan, entre outros. E aparece, finalmente, na prática do que Ulmer definiu como a pós-crítica, e que aparece definida na contracapa do volume: aplicação de procedimentos modernistas como a colagem e o estranhamento às operações da representação. Creio que a proposta de Ulmer deve ser lida em termos da possibilidade da crítica em um momento em que o velho, ou seja, o moderno, ainda não morreu e o novo ainda está, talvez, por nascer. Enquanto isso, é a reciclagem de um certo passado moderno, mais espacial do que temporal, que faz sentido e precisa ser ativada.

Se tivesse que definir a lição maior que aprendi do volume, diria que ela diz respeito ao significado da crítica hoje, seja ela pós ou não. Se vivemos, hoje, nas humanidades, a angústia do pós sem destino certo, é preciso dela falar sempre, mesmo falando de outra coisa. E creio que falo por muitos quando agradeço aos organizadores e autores, pela oportunidade de participar, como leitor, dessa experiência do exercício da crítica possível, hoje. É que a crítica, literária ou não, em nossos tempos, é mais necessária do que nunca.

* Professor titular do Depto. de Língua e Literatura Estrangeira na UFSC